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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Julgue-me




Certo ou errado é relativo. O que te faz bem ou mal, você sempre sabe. Mas não é só você que existe no mundo, então é bom ser cauteloso. Viver com o botão do foda-se ligado 24 horas por dia pode parecer ideal, o difícil é pensar que o botão do foda-se alheio pode estar ligado pra você também. Não parece tão legal colocado dessa forma, né? 
Adoro escrever, tenho um blog, já toquei violino durante cinco anos, aprendi a tocar violão sozinha e a falar uma outra língua também. Inclusive, sou professora. Não sou cult e, por mais que eu tenha vontade, não consigo parar pra ler um livro. Prefiro seriados ou a mesa de um bar. Gosto de falar palavrões. Fico meio brochada com pessoas que escrevem errado. Gosto de jazz. Já dancei funk uma noite toda. Não sou patriota. Adoro jogos da seleção brasileira. Não sei nada - ou quase nada - sobre política. Entendo que o Brasil tem um mundo de corruptos. Política não é só isso. Voto porque sou obrigada. Não vou pra rua protestar. Admiro quem vai com o peito aberto procurar uma mudança. Faço uma doação minúscula por mês pra uma instituição de caridade. Fica mais barato que minhas recargas no celular. Não sou mesquinha. 

Julgue-me. 

Já tentei dar moral pra um homem de rua, bater um papo legal com ele e sabe o que aconteceu? Ele me assaltou. E eu também já pensei que um cara bem vestido não iria me roubar e, bom, ele levou minha carteira.
Sou influenciável, mas não fico onde não quero. Se fiquei, tô tentando sair, porque nem tudo é fácil assim. Ao mesmo tempo que você é influenciado, você influencia. Ser inflexível, ao meu ver, dificulta a convivência e amarga o ser. Minha autoestima não é boa, juro. Mas eu posto fotos minhas na Internet. Então me acho, né? Não é bem assim. Falando nisso, beleza - lembrando que é bem relativa -  é um aspecto bastante importante pra me fazer sentir atraída por uma pessoa. Não sou superficial. Muitas outras coisas me atraem também - umas em maior proporção, outras em menor. Morro de raiva de pessoas magras que comem muito. O fato de eu e metade da torcida do Flamengo tentar fazer dieta pra ter um corpo visualmente bonito não significa que eu ache bacana a fome na África. Gente. Calma, né? Eu posso ir à academia e ser uma negação na escola, assim como posso continuar sendo uma negação na escola e comer pizza todo dia. Posso ser nerd ao extremo e gostar de músculos, assim como posso escutar pagode e vestir preto. Ok. Foge dos padrões e provavelmente eu mesma iria julgar essas pessoas, mas não irei lançar pedras contra elas ou tentar impedir que elas tenham filhos, por exemplo. Ou que se casem.

Julgue-me.

Vivo em sociedade e sou obrigada a seguir certas regras, mas isso não me faz mole de opinião ou sem personalidade. Busco ser compreensível e paciente com os que me cercam, mas sou bem irracional e estúpida com essas mesmas pessoas de vez em quando. Choro com vídeos de pessoas doentes que precisam de tratamento e não têm, mas também já chorei assistindo a um episódio de um seriado no qual a mulher se despedia do seu melhor amigo: um cavalo. Não sou insensível. Já escrevi e falei coisas irreais num momento de mais profunda fossa que me colocaram em um nível bem superior. De lá mesmo eu via que era o exato contrário. Que mal há em sonhar um pouco? Mais pra frente o sonho acaba virando realidade. Não pisei ou usei alguém de escada pra chegar nela. Ok, talvez no sonho. Já deixei de fazer o que meus "instintos" me mandavam por ouvir palavras de amigos ou até mesmo colegas. Algumas vezes deram certo. Em outras me fodi. É a vida brincando de roleta russa com a gente.

Julgue-me. 

Sou um ser paradoxal e acredito que todos somos. Sei que tenho meus defeitos, porém ainda estou nos meus vinte e tantos anos e tenho milhões de autoanálises a serem feitas ainda ao longo da vida; elaboro pré-conceitos e não sei bem o porquê; faço julgamentos a quase todos, mas não mais do que a mim mesma; sinto vergonha de alguns comportamentos meus, mas tento mudar pra ser uma pessoa mais coerente. Não sou muito de me valorizar, mas sei o meu valor. E isso não tem preço.
Isso é apenas uma exposição. 
São meras opiniões. 
Concorde. 
Discorde. 
Concorde em discordar. 
Não tem problema. 
Ou tem. 
O importante é que haja respeito.
Fique com Deus. Alá. Buda. Sozinho. Sei lá.
Fique bem.

domingo, 11 de agosto de 2013

Autópsia




Quase torturo os meus olhos com essas águas salinas nos dias em que acordo e resolvo me analisar. Esse autoexame exige um grau de autoconhecimento tão profundo que me faz perder o fôlego e pensar em desistir. Por dentro tudo é tão mais frágil. Olho para as paredes do meu interior e enxergo muito mofo. Deixei algumas partes apodrecerem e esqueci de jogar fora. Não gosto de tudo que vejo, mas percebo que é hora de começar a arrancar o verde com as unhas. Sim, machuca. Mas como cicatrizar sem ferir? Fico nervosa. Não tenho controle sobre mim. Emudeço. As palavras são vãs, bem como a minha vontade de ser o que não consigo alcançar. Vivo em constante prática terapêutica comigo mesma. Há dias que as noites são mais claras que meus pensamentos. Sou mulher esquisita. Desenho mal e porcamente todas essas linhas de raciocínio lógico. E é lógico que não é natural ser assim. Aquilo - que do lado de fora vai se traduzindo em pele, olhar, toque e calor - vem daqui de dentro, desse lugar que estou te mostrando, onde escondo minhas falhas, onde sou invulgar, onde posso me aborrecer com minhas inexperiências e fazer birra; onde minhas decepções estão arquivadas lado a lado com as minhas impulsividades. Estou me despindo toda por dentro e preciso que você me veja nua. O que você vê? Confesso que estou morrendo de medo. Me sinto vulnerável assim, com as vísceras à mostra. Quando os meus olhos se abrem, vou revisitando todas essas memórias e me sinto envergonhada. Coloco a minha capa dura e me faço arredia. Mas o processo de cicatrização é um tanto quanto vertiginoso do outro lado da pele. Há outras cicatrizes. Já houve outras limpezas, outras autópsias, outras decomposições. São a partir delas que eu me reapresento todos os dias. Estou aqui hoje e você pode me tocar, porque sou como música: cifrada, mas nunca impossível de ler.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O trabalho de amar




Amar uma pessoa não é emprego pra qualquer um. O trabalho exige proatividade, dedicação, ótima interação, habilidade na comunicação oral e todas essas coisas que você tem que fazer pra manter um emprego. Ah, o trabalho em equipe é um dos requisitos mais essenciais. Sem ele, o amor não vai pra frente.
Como todo trabalho, amar também deve ser muito prazeroso. Lembrar daqueles pequenos detalhes e sorrir como um imbecil é parte da rotina profissional.
É um trabalho complicado. Tem gente que parece que nunca vai conseguir uma vaga. Outros ficam a vida toda só pensando nisso e esquecem de viver. 
Surge aquela velha frase: quando você menos esperar, a oportunidade vai pular na sua frente. Muitas vezes ela aparece de surpresa mesmo, tão de surpresa que você precisa escolher entre preencher a tão sonhada vaga ou trabalhar em outras áreas. Não pense que só aí que vão acontecer renúncias, porque pra trabalhar com o amor, abrir mão de certas coisas é essencial. Muitos vêem como obrigação, infelizmente. Muitas vagas são tão disputadas por outros que os empregadores esquecem de demitir o dono da vaga antes de contratar o outro. Outras vezes surgem duas vagas ao mesmo tempo e fica ridiculamente difícil escolher. Enquanto isso tem outros lá com um monte de vagas a serem preenchidas e nada de candidatos.
O fato é que precisando ou não, todo mundo almeja um lugarzinho nessa disputa. E o meu conselho é: achou AQUELA vaga, estacione o seu carro com sua melhor baliza, bajule o seu chefe, tome um cafézinho, faça uma pausa pra você de vez em quando, invente formas de não cair na rotina, não procure alguém pra culpar pelos seus erros, crie novas estratégias, trabalhe constantemente e nunca, mas nunca pense em se aposentar porque até no final... amar vale a pena. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Bate em disritmia





A verdade chega na hora que o sol começa a te cegar e você vira a cabeça bruscamente tentando desviar, aperta os olhos, fazendo as linhas sulcarem sua testa e o cantinho dos olhos; com um braço tenta achar um apoio para não cair prostrado no chão, com o outro tenta o fazer de escudo. Acordei. Cadê o sol? Onde estou? O coração bate em disritmia  São 3:42. Tudo escuro. Ouço uma respiração. Ainda atordoado, não sei do que se trata. Vou cheirando sua alma e encontro você ali do meu lado, respirando forte fazendo um barulhinho engraçado. Mexo meus lábios só para o lado direito e meus olhos relaxam, como as asas de um pássaro quando repousam ao cessar voo. Pisco lentamente. Me aproximo de você, coloco meu braço em volta da sua costela e vou descendo para a cintura; me encaixo, me esquento, respiro na sua nuca e desejo não sonhar mais. Torço para que o sol não chegue. Se a verdade só chega com o sol, prefiro viver na mentira da escuridão, acordado, ouvindo você dormir.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Paradoxo da luz





O duro é lidar com algo que você nunca viveu. O brabo é ser crucificado por uma atitude dita inconveninente, irresponsável e inconsiderada. O ignorante julga antes, se excede durante e não pensa no depois; tentar se colocar ali, de frente pro holofote, não faz parte da sua rotina. Ele não percebe o tanto que aquela luz pode deixar alguém cego, desorientado e cansado. Enxergar tudo de longe e se gabar por ter visto o que estava acontecendo é até um pouco simplório. Tudo que você quer é sair dali, mas quando não se enxerga uma saída, fica difícil discernir entre o certo e o errado. Aquela frase de procurar uma luz no fim do túnel não se encaixa aqui. Você quer sair da luz, mas não quer entrar na escuridão. Então o que escolher? É fácil? Você é meu convidado. Tente. Depois me diga se a vida não é um tanto quanto contraditória. Depois me diga, meu caro, se a sua batalha entre ter que escolher entre a luz que te cega e a escuridão que te deprime foi tranquila. 
É aí que se sonha com o paraíso de um quarto à meia luz. E desse, eu o convido a se retirar. 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Calos; sempre calo.






Sonhei com você essa noite. 
Sonhei que a gente dava certo. 
Sonhei que a gente tinha sido feito um pro outro. 
Sonhei que você me deu bom dia quando acordou. 
Sonhei que você me fez um carinho e se interessou pelo meu dia. 
Sonhei que nossa noite tinha sido quente e saído da rotina. 
Sonhei que conseguia ignorar que todos os calos na superfície da minha alma não eram resultado das suas repetidas grosserias.
Sonhei que queria acordar. 
Sonhei que você não era meu pesadelo. 
Sonhei que teria coragem para dar um basta. 
Sonhei que não te queria mais.

Acordei. Você do meu lado. Coloquei a mão no seu rosto. Ameacei começar a falar. Hesitei. Suspirei. Não consigo. Sonhei.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Cigarro, tempo, bateria.







Ela tinha aquela mania de coçar a nuca enquanto bocejava. Seus olhos lacrimejavam e denunciavam o cansaço que acabava de chegar. Acendeu um cigarro. Marlboro Light. Ela sempre fumava esse. Ali, sentada na cama, vestindo um short laranja que usava para dormir e um top branco com um furo na alça, coçava os olhos fazendo borrar o lápis preto de doze horas atrás. Observava o quanto havia engordado e se esforçava para esconder, apesar de não ter ninguém olhando. Seus pensamentos eram cheios de espaços vazios que ela não conseguia preencher. Talvez não quisesse. Ou não era a hora. O tic-tac do relógio vermelho de parede que sua tia trouxe de Amsterdã só a fazia lembrar que poderia não ser a hora, mas que o ponteiro não parava. Nunca. O barulho era até irritante. Deu o último trago no cigarro, tirou outro do maço, o acendeu e o repousou no cinzeiro. Era um teste. Quantos minutos o cigarro demoraria para queimar até se transformar em cinzas? Olhou para o relógio, mentalizou uma contagem regressiva começando do três e já. Uma angústia penetrou sua alma e ao invés de apagar o cigarro, ela se colocou na ponta dos pés, agarrou o relógio e lhe arrancou a bateria. Quando olhou para o cinzeiro, o cigarro já havia queimado por completo. Sua solução foi paliativa. Tentar parar as horas, os minutos, os segundos; arrancar a bateria dos outros ou até mesmo a sua. Se não apagar o cigarro, ele continuará queimando. O tempo passa. A bateria acaba. O cigarro queima. Ela decidiu. Deixa estar, deixa passar, deixa queimar. Sempre tem outra bateria, outro cigarro, outro tempo. Suspirou e adormeceu.

Sobre o tempo






- Anda, vamos, pegue seu relógio! Tenho pressa e preciso ir embora! - você disse com o olhar desesperado e a voz arranhada, sem pausas.
- Eu não quero ir.
- Anda, vamos, pegue seu relógio. Você não quer tempo? O relógio tem, eu não.
Enquanto descíamos onze andares, os nossos passos iam se intercalando, ecoando nas paredes acinzentadas e geladas daquela escada.
- Para.
- Anda, vamos.
- Eu não quero seu tempo.
O ar congelou por dois segundos e voltou logo em seguida, como quando volta aos pulmões de alguém que parou de respirar por um momento.
- O quê?! - você disse ao parar e, quase indignado, franzindo a testa.
- Eu não quero e nem preciso do seu tempo. Ele é seu. Eu quero que você o compartilhe comigo. É tão difícil assim?
- É! - você gritou baixinho, antes mesmo que eu terminasse minha pergunta.
Silêncio. Eu não esperava uma resposta tão rápida.
Sabe quando você toma coragem para falar o que pensa e depois que fala, se ouve, e vê o tanto que aquilo soou estúpido e ridículo?
- É assim tão difícil porque com o tempo vem um laço; com um laço, vem um compromisso; com o compromisso, vem a escolha; com a escolha, vem a idade; com a idade, vem a rotina; com a rotina, vem o cansaço e com o cansaço, nós morremos. E o luto dói.
Não soube responder. Me calei e apertei meus olhos que começavam a chover.
- E depois de trinta e quatro anos, eu ainda não aprendi que o luto é só questão de tempo.
- Você é tão desiludido. - eu disse tentando engolir a mágoa.
- E você é tão iludida.
- Se minha percepção é distorcida, que seja! - eu reagi. Eu vejo você e meu coração responde. É como se quisesse conversar com o seu. E você aí, letárgico.
Nenhum de nós aumentou o tom de voz. Nem sequer uma vez. Conversávamos fitando os olhos intensamente, e como numa música com letra sombria e melodia contente, continuávamos ignorando a distância de um passo que já estávamos um do outro. O único barulho que eu conseguia ouvir agora era o da sua respiração.
- Não me deixa ir embora. Eu quero ficar.
- Não.
- Me pede para ficar.
- Não posso.
- Me beija. Se comprometa. Amarre seus laços na nossa rotina. Morra de cansaço comigo.
Nessa hora, coloquei o relógio em suas mãos e você o deixou cair. Você assistira o tempo se quebrar em câmera lenta. Como num piscar de olhos, você se abaixou e catando os pedaços, sussurrou:
- Anda, vamos, pegue seu relógio. Tenho pressa e preciso de você.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O início de tudo. Do nada.





Sua voz me contraria, sabia? 

Não me entenda mal! 
Não é que eu não goste dela. 
Pelo contrário! 
É que eu sei que enquanto te ouço, não estou tocando seus lábios nos meus, sentindo sua língua brincar com a minha, o gosto da sua vontade, sabe? 
É grave e me corrói cada momento que eu não posso arrancar um olhar do seu pensamento. Somos clandestinos. 
Foragidos. 
Somos o que não deveríamos ser. 
É como brincar de ser invisível. 
Estamos no olho do furacão e não temos uma ideia sequer de como faremos para sair daqui. Minto. 
Ideias temos aos montes. 
Rimos delas! 
Elas são meras ideias, palavras que não saem do plano, do papel, de mim, de você. Utopia. 
Penso mesmo que existam dois mundos. 
Você invadiu um espaço que não era seu e eu gostei. 
Eu deixei. 
E te prendi lá. 
Você é minha prisão e meu prisioneiro. 
Você é minha ilusão e minha besteira. 
Minha confusão e meu inteiro. 
Não! Só meio.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Me atende.







Nesses momentos de análise interior, resolvi que iria tentar parar de gastar minhas energias com situações e problemas que eu não tinha o poder de resolver. Só que a linha entre o ficar parada e deixar o tempo passar e o de virar uma pessoa extremamente acomodada é delicada e tênue. Como saber se o problema não é meu? Como deixar pra lá se não tenho certeza de que nada posso fazer? Dizem que o amor é cego, e no caso de um relacionamento no qual todos os esforços são feitos apenas por um lado, sou obrigada a concordar. Cego porque não se ama sozinho, cego porque não se enxerga que está fazendo papel de idiota, cego porque você acha que pode abraçar o mundo sozinha, cego porque não vê que a rejeição já aconteceu, e você não quer aceitar. Você diz pra você mesma que você está fazendo o seu melhor e quer lutar pelo outro. Bonito isso. Na teoria. Porque na prática, você está lutando contra a parede. É triste e só você não vê. A outra pessoa, de longe, só fica te observando machucar e meter seu punho contra o concreto. Sim, o concreto é o que já acabou. Você dá seu sangue, e de nada adianta, só faz doer. 
Olha, uma pessoa que está no mínimo interessado não te passa só 6 números do telefone dela. Tenho que adivinhar os outros dois? Onde já se viu isso? Se você me passar seu número inteiro, não quero que esteja ocupado o tempo todo. Se você me ama, que seja por completo, me dê os oito números. E, acredite em mim, eu vou te ligar. Você me atende?

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Minha perdição







O melhor da vida é perder. 
Perder a vergonha de errar, o medo de tentar.
É incrivelmente doloroso perder para dar valor.
Mas somos burros de alma. 
Teimosos de coração.
E não há ninguém para se culpar.

Eu quero perder.
Se perder significa aprender, eu quero.
Eu quero esgotar minhas energias
tentando fazer você entender
o quanto te desejo.
Quero contar as gotas de suor no seu corpo e
perder a noção do tempo.
Quero perder toda minha inocência
e continuar madura suficiente pra você
Quero entender quando você perder
e não quiser ceder.
Quero perder meus sapatos
correndo atrás dos nossos sonhos
Quero perder a distância entre nossos olhos.


O melhor da vida é perder.
Perder a mania de mentir, a maldade no falar.
É inevitável perder o intenso para a dor
Mas quero eu perder o corpo para ganhar a alma.
E, se é assim, serei teimosa: 
quero perder o coração para rimar com amor.







terça-feira, 8 de maio de 2012

Alarme: falso.








Aí a noite já começa com aquele turbilhão de pensamentos na cabeça, sentimentos embaralhados, uma bebida quente no criado para esquentar o debaixo da pele onde se escondem meus segredos. 
A vida é esse negócio de viver em treinamento para situações de emergência. 
Toca um alarme e eu nem ligo. 
Nunca acho que tem algo acontecendo. 
Eu sempre penso que é alarme falso. 
E olha, na maioria das vezes é. 
Aquele eu te amo mal dito. 
Tudo mentira.
Aquela traição maldita. 
Tudo falso.
Aquele relacionamento rasgado e impossível de remendar.
Besteira. 
O brabo é que dessa vez o alarme tocou e eu não fiz nada. 
Dessa vez me invadiram e eu nem vi. 
O caos se formou e eu nem percebi. 
Agora que o alarme já me ensurdeceu e finalmente fui capaz de tomar consciência que quem estava desmoronando era eu, peguei minha coragem, enfiei na mochila, vesti um casaco antigo ali com um pouquinho de lucidez nos bolsos e saí para enfrentar tudo para o que, até então, só tinha feito o treinamento. 
Que ironia dizer, mas até que sinto falta dos alarmes falsos.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Com prazo à vista










Não, não foi amor à primeira vista.
Nem à segunda.
Nem à terceira.
Talvez a prazo.
Prazo para o prazer e prazer a prazo.
Você entrou na minha vida e eu nem notei.
Calma! Não se sinta ofendido.
Eu não notei de primeira.
Nem de segunda.
Nem de terceira.
Demorou um tempo para eu admitir que você não só já tinha entrado
como já fazia parte do meu bom dia, da minha boa tarde, da nossa boa noite - e quão boa!
Acho que foram nos detalhes que você me amarrou.
Aqueles tão pequenos que eu mesma nem sabia que existiam.
Aquelas conversas intermináveis e o contrariar da vontade ao me despedir mesmo depois de ter passado o dia todo fazendo nada e tudo com você.
Como você consegue me conquistar assim todo dia?
Será a sua voz que arranca uma calma sem precedentes de dentro de mim?
Será seu olhar que me faz querer abandonar tudo e colar em você?
Será seu abraço que envolve meu mundo e amansa minha loucura?
Não foi a primeira, nem foi a segunda, nem a terceira.
Não me lembro mais quantas vezes foram que, com os olhos marejados, implorei para você ficar.
Agora, com prazo à vista,
seria diferente se eu te pedisse para não ir?

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Luto







Luto por um luto.
Um minuto de silêncio. 
É tudo que eu peço. 
Um minuto de silêncio interior. 
Para tudo só por um minuto, por favor. 
Para o aqui permanecer aqui e o depois existir. 
Para uma solidão de momento não parecer ser só solidão. 
Para uma coexistência saudável entre mim e meu eu. 
Para tudo! Eu quero respirar. Não aguento mais essa falta de ar. 
Eu tenho pressa de pensamentos e raciocínio pesado, mas não quero mais pensar. 
Por um minuto. 
Só peço mais um minuto para eu me vestir de preto e lamentar a morte do que me causa dor e ressurgir no amor. 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sou eu. Abre.







Fui lentamente chegando minha camiseta branca no lugar, ouvindo o barulho do meu zíper subindo, fechando com ele meu pudor, as palavras sujas, o gosto molhado da noite não esperada e sim, ensandecida. Meu olhar ficou parado, fixo naquela parede que tinha o cheiro do seu suor misturado com o meu. Fui me enlouquecendo com flashes da sua pele sugando minha libido, com cada pulsação, cada lugar do meu corpo latejando causando arrepios, me fazendo conversar na língua do tesão. 




A campainha tocou e eu estava com meu moletom cinza e aquelas olheiras típicas de uma noite após um cansativo dia de esforço mental. Fui andando em direção à porta, com meu livro na mão, o dedo indicador entre as páginas funcionando como marcador e me perguntando quem poderia ser. O vizinho, talvez. Mas a essas horas? 
- Quem é?
Silêncio. Pergunto novamente e ouço alguém dizer calmamente do outro lado:
- Sou eu. Abre.
Meu coração disparou na hora. Senti como se ele não pertencesse mais a mim. Um peixe vivo fora d'água que você tenta segurar em suas mãos. Em vão. Minhas mãos começaram a suar. Respirei fundo, repousei meu corpo sobre a porta e lentamente girei a maçaneta. Ao ouvir o clique do desencaixe, senti você fazer uma leve pressão empurrando a porta contra mim. Um passo e você já estava dentro segurando meus braços, me forçando a andar para trás, como numa dança. Passo a passo. Nos entreolhando. Fixamente.
Sofá. Nenhuma palavra. Parede. Sons. Tapas. Intensidade. Provocação. Insanidade. Fugacidade. Oi. Um sorriso. Te amo. Adeus.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Lado B







Eu estou cansada, mas não desisti. Estou queimando por dentro, mas estou pronta pra te acalmar, aferrecer. Eu rodopio, canto um canto e dou um pio, perdida. Me achei. Seguro minhas mãos frágeis, trêmulas e me desdobro e desviro para achar a coragem e a braveza que você exige de mim. Auto-salvamento. Procuro formas pra me encaixar em sua forma. Não encaixo. Não vou encaixar. Você gosta de mim assim, desencaixada. Fazer o quê? É essa nossa extravagante capacidade de arder de amor e irradiar entre olhares amargos, arredios e salinos. Vivemos entre contos e canções, entre o cliché e o lado B, atravessados na garganta, invertidos no coração, inimagináveis na mente alheia e perfeitamente possíveis do lado cá. No meu mundo você faz todo o sentido do mundo, mesmo que imundo.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Puzzle it in a lie







A vida é um quebra-cabeça que, para montar, demanda esforço físico e mental.
Mentir é como pegar uma de suas peças e esconder; o quebra-cabeça nunca fica completo sem essas peças que você mesmo escondeu. A peça de uma verdade nunca vai repor a peça de uma mentira, e assim, isso tudo se transforma em um jogo no qual você pode escolher viver incompleto, porém impune ou completo e sujo. A verdade é que não existe um quebra-cabeça completo. Todo mundo tem suas indignas - e, talvez necessárias - peças da mentira.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Duas sinceridades







Saudade daquela segunda-feira gelada. Finalmente criei coragem para me aproximar de você. Fui chegando mais perto sob o pretexto de estar com princípio de hipotermia. Tá, exagero meu. Só estou com frio. Aquela velha tática, eu reclamo do frio e você tem duas opções: me empresta sua blusa ou me abraça. Prefiro a última.
- Quer minha blusa?
- Não, claro que não! Se você me emprestar a sua, você quem vai sentir frio. Aí não vale.
- Não me importo.
Enquanto ele entrelaçava os braços em frente ao peito e agarrava os dedos na borda da blusa para tirá-la, eu num impulso - vindo, juro, não sei da onde - coloquei minha mão em cima de seu blusão e o impedi. Seus olhos se abriram rapidamente e me olharam, arregalados. Logo correram para o sul e avistaram ali a minha mão, intrépida, aventureira, corajosa e firme. Bom, essa era a expectativa. Agora a realidade, vamos lá. Eu parecia um defunto. Nem eu mesma acreditava que tinha feito aquilo. Ainda bem que era, de fato, um dia gelado, e eu tinha uma desculpa para minhas mãos trêmulas e congelantes.
- Você não quer?
- É... Bem, não. Não exatamente, sabe?
Nessa hora eu pensei em tirar minha mão de cima do braço dele, mas ele também não tinha tomado a iniciativa de mover o braço dali, ele simplesmente afrouxou e os repousou sobre o abdomen. Que culpa tenho eu? 
- Como assim?
- Deixa pra lá. É que...
Ele foi escorregando minha mão sobre seu braço até chegar em sua mão. 
- Nossa! Que mão fria!
Colocou-a entre as suas como uma carne no meio de dois pães. Com aqueles típicos movimentos de vai-e-vem, ele foi tentando um aquecimento provocado pelo atrito. Mal sabe ele em qual calor eu penso promover através de movimentos bem parecidos, eu diria. Enfim.
- Obrigada, viu?
- Você ainda não me disse o que quer.
- Já que você esquentou minha mão, acho que merece uma sinceridade.
- Posso esquentar a outra. Aí você me deve "duas sinceridades", ó!
Eu pareço estar sofrendo um derrame quando estou numa situação dessas. Porque, olha, só pode ser isso. Eu fico apática. Mas, contraditoriamente, meu sangue deve parar de circular no meu cérebro e ir todo para o coração. Juro. Eu não sou normal. Cento e setenta batimentos por minuto, mãos produzindo gotículas de suor a todo vapor, pupilas dilatando feito um buraco negro... 
- Você.

Isso é o fim!




Andei pensando e me perguntando por que o final sempre nos fascina mais. Já percebeu? A gente sempre quer saber o final de um livro, o final de uma história, o final de uma novela. O fim da vida. Pra onde iremos? Realmente acaba? Ou é o começo de outro fim? O fim também pode ser traduzido como resultado. O resultado é o que mais importa. Onde vai dar o seu relacionamento, quantos filhos você vai ter, quanto você vai receber no fim do mês.
É sofrido pensar só no fim das coisas. Tudo acaba, eventualmente. Então eu proponho uma mudança de parâmetros, de mentalidade, de atitude. Não vou me preocupar com o final. Vou me preocupar no caminho que vou trilhar até chegar no inevitável fim. Vou tratar de dar um brilho na minha história, cuidar mais de quem gosta de mim, trabalhar mais, reclamar menos, sorrir mesmo quando o meio de campo estiver embolado, chorar quando necessário, planejar sem medo de dar errado. Muita coisa eu nem pedi pra começar, não sei quando irá terminar, mas tenho certeza que posso mudar como.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Expirada pela insônia







Ah, essas noites inspiradas e expiradas pela insônia, insistentes em deixar meu corpo sem repousar e sem sentir aquela única hora que a falta do oxigênio é interessantemente deliciosa, conseguindo provocar bocejos que lacrimejam meus olhos e me fazem balbuciar palavras desarticuladas. Maldita insônia. O meu olho esbugalhado só me faz lembrar que não irei dormir pelas próximas horas. Todos se despedem com desejos verdadeiros - ou não - de boa noite e eu começo a suspirar pelos cantos, pensando comigo mesma se irei - ou que horas, de fato - ter uma boa noite de sono. A ansiedade não ajuda em nada. Fico estressada porque estou ansiosa porque não consigo dormir. Fez sentido? Não? Ah, foda-se. Desculpa, estou um pouco nervosa. É que não quero ficar aqui sozinha enquanto todos dormem. Fica comigo? Quem sabe meu sono goste de você aqui comigo e resolva me consumir. Bom, eu já gosto. Vem?